A lição de vida da minha vida

texto escrito em 25 de maio de 2008

Desde que me entendo por gente, não lembro de outro conselho a não ser “Vá estudar!”. Desde que tirei aquele seis e meio em história, me lembro como se fosse ontem, na quinta série do ensino fundamental, nunca mais fui a mesma. Lembro do meu pai chorando, completamente desapontado comigo, simplesmente porque eu havia tirado cinco décimos acima da média no boletim; fiquei arrasada. Nunca tinha feito algo que fizesse meu pai chorar. Meu pai. Aquele que de vez em quando quase nunca chorava. Ele ficou por, pelo menos, uma hora fazendo um breve discurso do seu passado sofrido, que, com todo respeito, deve ter sido sofrido mesmo, porque me fez chorar também. Tudo aquilo me deixou tão abalada emocionalmente que eu prometi que, a partir daquele dia, estudaria todos os dias com muito amor, dedicação, disciplina e, principalmente, coragem, porque o conteúdo de história da quinta série é lastimável. Não durou uma semana, e lá estava eu, assistindo televisão, estudando um dia antes da prova toda a matéria acumulada, mas sempre com muita sorte no dia da prova; eu conseguia tirar mais de sete na média! Mas para meus pais não era o suficiente, aliás, nunca é o suficiente. Eles sempre foram acostumados a me comparar com os melhores do colégio (se fosse da classe, mas não…).

Hoje eu estou no segundo ano do ensino médio, e durante todos esses anos tenho ouvido a história do passado de meu pai. E agora piorou, porque da escola pra casa é um longo caminho, ou seja, dá pra ele contar umas três vezes e ainda fazer um resumo no final do sermão e só pra piorar um pouquinho, ano que vem eu termino o ensino médio e acabar-se-á minha “vida boa”.

Eu estava agora há pouco assistindo televisão, quando o interfone tocou. Eu nem tive a curiosidade de me levantar pra ver quem era pela janela. Meu pai foi abrir o portão, e reconheci pela voz quem era: um amigo dele, de trabalho, mas é amigo, que sempre conserta os problemas do meu computador (por isso me simpatizo com ele). Assim que ele adentrou a sala de minha casa, deu de cara com a cena em que estava eu e meu irmão do meio, literalmente esparramados pelo sofá, assistindo televisão, quando nos cumprimentamos. Ele disse “nossa! Incrível! Vocês não estão mexendo no computador!” e eu respondi com o bom e velho “pois é!”. Meu pai engrossou a voz e disse “aqui em casa é controlado agora. A gente tem que ser ruim pra ser bom. Esse negócio de computador atrapalha demais os estudos!”. E começou toda aquela conversa de novo. Hoje eu já ouvi a história do passado do meu pai. Amanhã vou ouvir de novo. Por que eu nunca tomo jeito? Eu já sei o porquê. Minha mãe já me explicou: porque eu tenho muito conforto, luxo, preguiça e nunca passei necessidade; meus pais viveram outra realidade, cheia de problemas e desafios, e graças a tudo o que aconteceu com eles, hoje eu tenho conforto, luxo, preguiça e nunca passei necessidade. Só o sofrimento constrói. E pior que é verdade. Depois de toda aquela mesma conversa e daquela mesma lição de vida que meu pai sempre dá foi que resolvi escrever essa crônica.

Mas não vou abaixar meu topete, tenho a audácia de dizer que sou assim por culpa dos meus próprios pais! Eles não quiseram que eu passasse pelas mesmas situações que eles já estiveram, daí o conforto e o luxo, e daí a preguiça. Mas a partir de amanhã, eu vou ser diferente. Portanto, vou aproveitar o tempo que me resta pra ver mais um pouco de televisão, mexer na internet e dormir. E faltam apenas duas horas para amanhã.

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